Adestramento e Educação

Pastor Maremano Abruzês: guia completo da raça

Guia completo do Pastor Maremano Abruzês: ficha da FCI nº 201, medidas, temperamento de cão de guarda de rebanho, saúde e dicas de adestramento.

Cintia C. Sabbag

Por Cintia C. Sabbag

Pastor Maremano Abruzês branco, de pelagem densa, em pé de corpo inteiro sobre fundo bege claro

O Pastor Maremano Abruzês é um cão grande de verdade, não um cão grande de folheto. O padrão FCI nº 201 pede 67 a 73,5 cm de altura na cernelha e 40 a 52 kg nos machos, 62 a 70 cm e 35 a 45 kg nas fêmeas. A origem é a Itália central, e a função declarada no padrão é curta e honesta: cão pastor usado principalmente para a proteção de rebanhos e a guarda de propriedades. Isso não é detalhe de cartório. Ele é um livestock guardian dog, um cão de guarda de rebanho, e não um cão de condução como o Border Collie. O Border Collie foi selecionado para olhar o pastor e executar; o maremano foi selecionado para ficar sozinho com as ovelhas na montanha e tomar decisão por conta própria, sem ninguém mandando. A pelagem é branca sólida, longa, chegando a 8 cm no corpo, áspera ao toque, com subpelo farto no inverno. A cabeça larga e cônica é comparada no próprio texto do padrão à de um urso polar, o que descreve bem a impressão que ele causa ao vivo.

O custo real de ter um maremano não está na ração, embora um adulto de 45 kg coma o que come. Está no espaço e no barulho. Ele patrulha, marca território e late, principalmente à noite, porque é exatamente assim que a raça afasta predador sem brigar. Está também no tempo de convívio: cachorro que passa o dia trancado sozinho num quintal urbano vira cachorro frustrado e barulhento, e cachorro grande frustrado dá problema grande. Está na saúde de raça gigante: displasia coxofemoral, displasia de cotovelo e torção gástrica são os riscos que pesam, e o estudo italiano de longevidade publicado em Preventive Veterinary Medicine em 2024 colocou o maremano entre as raças de menor sobrevida do país, com mediana bem abaixo dos 10 anos observados no conjunto dos cães italianos. Está, por fim, na disponibilidade. No Brasil a raça existe com registro CBKC e criadores sérios em São Paulo, Rio de Janeiro e no Sul, muitos deles com plantel importado da Itália e cães já socializados em rebanho, mas o mercado é pequeno, a fila é real e filhotes de linhagem de trabalho costumam partir da casa dos quatro mil reais. Tosa profissional ele quase não pede. Escova, sim, e muita.

Expectativa de vida 10 a 13 anos
Altura na cernelha 62 a 73,5 cm
Peso 35 a 52 kg
Porte Grande

Características do Pastor Maremano Abruzês

Cada nota resume o comportamento típico da raça, com base no padrão oficial e na convivência relatada por tutores e criadores. É uma avaliação qualitativa, não uma medição: cada cão é um indivíduo.

  • Adaptabilidade 2/5
  • Nível de afeição 3/5
  • Bom para apartamento 1/5
  • Necessidade social 3/5
  • Necessidade de tosa 3/5
  • Amigável com crianças 3/5
  • Amigável com cães 3/5
  • Amigável com estranhos 2/5
  • Tendência de latir 5/5
  • Gosto por brincadeiras 2/5
  • Inteligência 4/5
  • Tolerância ao frio 5/5
  • Necessidade de exercícios 4/5
  • Facilidade de treinamento 2/5
  • Cão de guarda 5/5
  • Queda de pelo 4/5
  • Espaço necessário 5/5
  • Tolerância ao calor 2/5

Um urso polar de 50 quilos, e a comparação é do próprio padrão

O padrão FCI nº 201 descreve um cão grande, de construção forte e aparência rústica, majestoso e ao mesmo tempo típico. As medidas oficiais são 67 a 73,5 cm de altura na cernelha para machos e 62 a 70 cm para fêmeas, com peso de 40 a 52 kg e 35 a 45 kg respectivamente. O corpo é mais longo que a altura na cernelha, a profundidade do tórax fica pouco abaixo da metade da altura, e a cabeça mede quatro décimos da altura na cernelha. Traduzindo: é um cão retangular, pesado, feito para durar dias no campo, não para correr rápido.

A cabeça é a assinatura da raça. Larga, achatada, de formato cônico, e o texto do padrão diz na letra que ela lembra a de um urso polar. O crânio é bem amplo, com perfil levemente convexo, e os eixos longitudinais do crânio e do focinho são levemente divergentes. O stop é pouco marcado e o ângulo frontonasal sempre bem aberto. Trufa grande, na linha do focinho. Pigmentação preta na trufa, nos lábios, nas bordas das pálpebras, na terceira pálpebra e nos coxins é exigência, não capricho estético: trufa completamente despigmentada é falta desqualificante.

A pelagem é branca sólida. O padrão tolera nuances de marfim, laranja pálido ou limão, mas só dentro de certos limites, e desqualifica o cão que seja inteiramente marfim ou isabela, que tenha manchas bem definidas nessas cores ou sombreados pretos. O pelo é longo, bastante áspero ao toque, próximo de crina de cavalo lisa, assentado sobre o corpo, com onda leve tolerada. Forma um colar importante no pescoço e franjas curtas na borda dos posteriores, e é curto no focinho, no crânio, nas orelhas e na frente dos membros. No corpo chega a 8 cm de comprimento. O subpelo só fica abundante no inverno.

Duas faltas graves dizem muito sobre o que a raça deveria ser: cauda enrolada sobre o dorso e andadura de camelo constante, quer dizer, o cão que anda movendo os dois membros do mesmo lado juntos. E há uma falta desqualificante que interessa a qualquer comprador brasileiro: cão agressivo ou excessivamente tímido é desclassificado. Maremano bem criado é seguro de si e reservado, nunca explosivo nem acuado. Se o filhote que te ofereceram é qualquer um dos dois extremos, o problema não é de socialização apenas, é de seleção.

Guardião, não condutor: por que ele decide sozinho e por que isso muda tudo

Existem duas famílias muito diferentes de cão de rebanho e confundir as duas é a origem de quase todo mal-entendido com o maremano. O cão de condução, tipo Border Collie ou Pastor Alemão de linha de trabalho, foi selecionado para agrupar e mover animais sob comando do pastor, com foco intenso no humano. O cão de guarda de rebanho, tipo maremano, foi selecionado para o oposto: viver dentro do rebanho, na ausência do humano, e decidir sozinho quando o cheiro ou o som na borda do território merece um latido, uma investida ou nada. Um trabalha olhando para o pastor, o outro trabalha olhando para o escuro.

Na prática, isso produz um cão com uma independência que o dono despreparado lê como teimosia. Estudos de telemetria com cães de guarda de rebanho mostram o padrão: os cães passam a maior parte do tempo na mesma área do rebanho, mas os deslocamentos para longe acontecem principalmente à noite, com corridas rápidas pela borda da área de uso, patrulhando limites. A dissuasão vem do latido, da marcação de cheiro e da presença, muito mais do que do confronto direto, que é possível mas raro. Um trabalho publicado em Ecological Solutions and Evidence em 2024 mostrou que esses cães criam o que os autores chamam de paisagem de medo: predadores como raposas passam a evitar a área lendo pistas de cheiro e som, sem precisar encontrar o cão.

O padrão FCI resume o temperamento em uma linha: a função principal de guarda e defesa do rebanho e da propriedade se afirma no modo como ele cumpre a tarefa, com percepção e também com devoção ao dono e a todo o seu entorno. A palavra chave ali é entorno. O maremano não é um cão de uma pessoa só. Ele forma um mapa mental de quem e o que pertence ao grupo, sejam ovelhas, galinhas, crianças ou o casal de idosos que mora na casa, e trata o resto do mundo como potencial ameaça até prova em contrário. Isso é ótimo para uma fazenda e complicado para quem recebe visita toda semana.

É um cão notavelmente sério. Filhote brinca, adulto brinca pouco. Não é o Golden que quer bolinha, não é o Labrador que abana para qualquer um. A demonstração de afeto costuma ser física e discreta: encostar, deitar por perto, seguir de longe. Quem quer um cachorro efusivo vai se frustrar. Quem quer um cão que fica de sentinela na varanda a noite inteira sem receber nada em troca encontrou a raça certa, desde que aceite o preço em latido.

Quem realmente aguenta um maremano dentro de casa

Apartamento está fora de discussão, e não por causa do tamanho. É por causa do trabalho. O maremano precisa de perímetro para patrulhar e de algo dentro dele para considerar seu. Sem isso, o instinto de guarda se descarrega no que sobra: no barulho do elevador, no vizinho do corredor, no entregador. O resultado é um cão de 45 kg latindo várias vezes por noite em um prédio, situação que costuma terminar em briga de condomínio e em devolução do cão. Casa com quintal grande, chácara, sítio ou fazenda é o cenário mínimo, e o quintal precisa de cerca alta e bem fechada, porque cão de guarda de rebanho expande território quando pode.

Com crianças da própria casa, o maremano bem criado costuma ser paciente e protetor. Duas ressalvas honestas. A primeira é o peso: um cão desse tamanho derruba criança pequena sem intenção nenhuma, e o cachorro que passa o dia todo pastoreando o próprio tédio não tem controle fino de corpo. A segunda é mais delicada: como ele inclui as crianças da casa no grupo que protege, brincadeira barulhenta com criança visitante, com gritaria e empurrão, pode ser lida como conflito. Não é agressividade, é leitura de contexto. A saída não é isolar o cão, é apresentar visitas com calma e supervisionar de verdade, não de longe.

Com outros cães da propriedade ele geralmente se dá bem, sobretudo se cresceram juntos, e é comum ver duplas ou trios trabalhando em conjunto no campo, onde essa é inclusive a configuração recomendada. Com cão estranho que aparece na cerca, a história é outra: o cão errante é justamente uma das ameaças que ele foi feito para tratar, e no Brasil boa parte dos ataques a rebanho vem de cães sem dono. Passeio em parque cheio, portanto, não é o hábitat natural dele. Passeio com guia, em horário calmo, com cão que aprendeu a andar solto de tensão desde filhote, funciona.

Exercício é um ponto mal compreendido. O maremano não é atleta de resistência como um Husky nem precisa de corrida diária. Ele precisa de território e de rondas, que ele mesmo administra. Se mora em quintal, conte com duas caminhadas longas por dia mais tempo solto em área cercada. Calor é o inimigo: com subpelo e 8 cm de pelo, ele sofre em cidade quente brasileira. Sombra farta, água sempre, e exercício só nas pontas do dia. Nunca tosar a pelagem para aliviar calor, porque ela também isola contra o sol e volta mal do corte.

Pelo branco de 8 cm: o que cai, o que embola e por que tosa não resolve

A pelagem dupla do maremano é feita para inverno de montanha italiana, com pelo de cobertura longo e áspero, quase crina de cavalo, e subpelo denso que engrossa no frio. Nas nossas condições ele troca pelo o ano todo em intensidade média e faz duas trocas fortes, tipicamente na virada de estação. Nessas semanas cai pelo em quantidade que assusta quem nunca teve raça de subpelo. A rotina realista é escovação duas a três vezes por semana no ritmo normal e diária nas trocas, com rastelo de subpelo e escova de pinos longos, insistindo atrás das orelhas, no colar do pescoço, nas culotes e na base da cauda, que são os pontos onde o nó se forma.

Tosa de máquina é erro. O pelo do maremano protege do frio e também do calor e da radiação solar, e cão de pelagem dupla tosado costuma voltar com o pelo de cobertura ralo e o subpelo dominante, piorando o isolamento e aumentando o risco de queimadura de pele em cão branco. O que se faz é tosa higiênica: aparar entre coxins, arredondar o pelo dos pés, limpar a região perianal e nada além disso. Isso significa que o custo com tosador profissional é baixo, e o custo real vira tempo do dono com escova, mais banho a cada quatro a oito semanas, ou mais espaçado ainda em cão de campo, que se limpa sozinho surpreendentemente bem.

Sobre o branco: ele suja, é claro, e no barro brasileiro suja muito. A boa notícia é que o pelo áspero e a textura seca soltam terra ao secar, e a maior parte da sujeira sai escovando no dia seguinte. Vale vigiar lacrimejamento nos cantos dos olhos e manchas nas dobras dos lábios, que em cão branco ficam visíveis. E vale prestar atenção em pele: cão branco de pelagem densa esconde dermatite úmida embaixo do subpelo, sobretudo em região quente. Se ele começa a se lamber ou a cheirar mal em um ponto específico, separe o pelo e olhe a pele antes de trocar a ração.

A cor branca não é acaso estético. A explicação tradicional, repetida por criadores e pela literatura de manejo de rebanho, é que o pastor precisava distinguir à distância e no escuro o próprio cão do lobo que se aproximava, e um cão branco no meio de ovelhas brancas passa despercebido pelo predador e evidente para o humano. O padrão FCI leva isso a sério a ponto de desqualificar sombreados pretos e manchas bem definidas de marfim ou isabela. Ou seja, o branco sólido não é preferência de júri, é parte da função original.

De Columela à transumância: como duas raças viraram uma

Escritores romanos de agricultura, entre eles Columela e Varrão, já descreviam cães brancos de guarda de rebanho na Itália, e a recomendação de que o cão fosse claro para se confundir com as ovelhas e se distinguir do lobo aparece nesses textos antigos. A iconografia acompanha: de esculturas helenísticas a afrescos medievais existem cães brancos pesados junto a rebanhos, muitos deles usando coleira de ferro com pontas, o vreccale, feita para proteger o pescoço no confronto com lobo. O maremano moderno é o descendente vivo dessa função, não uma reconstrução recente.

Até 1958 existiam formalmente duas raças na Itália: o pastore maremmano, da Maremma toscana e do Lácio, e o pastore abruzzese, do Abruzzo. A separação era geográfica e de tipo, com o abruzês tendendo a ser maior e mais pesado, adaptado à montanha, e o maremano um pouco mais leve, adaptado à planície pantanosa onde os rebanhos passavam o inverno. O que uniu os dois foi a transumância, o deslocamento sazonal dos rebanhos entre a montanha do Abruzzo no verão e a planície da Maremma no inverno. O próprio padrão FCI registra que, sobretudo a partir de 1860, esse movimento de gado favoreceu o cruzamento natural das duas raças primitivas. Em 1958 a fusão foi reconhecida oficialmente e passou a existir uma raça só.

As primeiras inscrições no livro genealógico italiano da ENCI aconteceram em 1898, com apenas quatro cães registrados. A raça cresceu devagar e nunca virou moda, o que em geral é boa notícia para a saúde de uma população canina. Os registros anuais na ENCI subiram de 658 filhotes em 2008 para 710 em 2010, 801 em 2013 e 1019 em 2015, um crescimento consistente e modesto, muito ligado à retomada do uso de cães de guarda de rebanho na Europa depois do retorno do lobo a áreas de pastoreio.

A versão vigente do padrão internacional, publicada pela FCI em dezembro de 2025, inverteu a ordem do nome oficial para Cane da Pastore Abruzzese Maremmano, reconhecendo o peso do Abruzzo na formação da raça, mas o número do padrão continua o 201 e a classificação segue Grupo 1, Seção 1, sem prova de trabalho. Fora da FCI, o cão tem reconhecimento pleno do Kennel Club britânico, no grupo Pastoral, e do United Kennel Club americano desde 2006, no grupo Guardian Dog. No American Kennel Club ele ainda está no Foundation Stock Service, o estágio anterior ao reconhecimento pleno, por questão de número de exemplares.

Ficha técnica

Grupo
Grupo 1 da FCI (Cães pastores e boiadeiros, exceto boiadeiros suíços), Seção 1 (Cães pastores), sem prova de trabalho
Padrão
FCI nº 201
Origem
Itália (Maremma toscana, Lácio e Abruzzo)
Também chamado
Cane da Pastore Maremmano-Abruzzese; Cane da Pastore Abruzzese Maremmano, forma adotada na versão vigente do padrão FCI; Maremmano; Pastor da Maremma; Maremma Sheepdog

Pinguins, pumas e um filme australiano

O caso mais conhecido de maremano em conservação está em Middle Island, uma ilhota junto a Warrnambool, no estado de Vitória, na Austrália. A colônia de pinguins-azuis da ilha caiu de cerca de 600 aves em 1999 para menos de dez em 2005, derrubada por raposas que aprenderam a atravessar na maré baixa. Em 2006 o projeto colocou maremanos na ilha durante a temporada de reprodução dos pinguins, seguindo a ideia de um produtor local, Alan Marsh, que já usava a raça para proteger galinhas. O método foi descrito em publicação revisada por pares como o método Warrnambool, e o registro é claro: não houve predação por raposa documentada entre 2006 e 2017, e a colônia voltou a passar de cem aves, com censos posteriores relatando entre 180 e 200 pinguins.

Em 2017 os pinguins chegaram à ilha antes do previsto, adiantados em relação ao retorno dos cães, e houve ataque de raposa. Assim que os guardiões voltaram, os ataques pararam. É o tipo de acidente que serve de evidência: o efeito não é mágico nem permanente, é presença. O caso rendeu um filme australiano de 2015, Oddball, baseado na história real, que tornou a raça conhecida fora dos círculos de pecuária e trouxe uma onda de procura por filhotes de gente que não fazia ideia do que estava comprando.

A mesma lógica é usada hoje em vários continentes contra predadores muito diferentes. Na Patagônia, cães de guarda de rebanho protegem ovinos de puma. Na Mongólia, um estudo publicado em Conservation Science and Practice em 2021 registrou redução significativa das perdas anuais de rebanho por predação em criadores que receberam cães. No Brasil o uso vem crescendo em ovinocultura e caprinocultura, com o maremano como raça mais comum, e há material técnico de universidades brasileiras, entre elas a UFPel, tratando da formação desses cães para proteção de rebanhos ovinos. O ganho ambiental é duplo: menos ovelha morta e menos motivo para o produtor matar onça-parda, lobo-guará ou cão errante.

Um detalhe de manejo que quase ninguém conta: o filhote destinado ao trabalho é colocado junto ao rebanho por volta dos 40 dias de vida, para formar vínculo com os animais que vai proteger em vez de com pessoas. Cão criado assim é excelente no campo e costuma ser reservado demais para virar cão de casa. O contrário também vale: filhote criado dentro de casa, com muito contato humano, tende a se apegar às pessoas e a se afastar do rebanho, o que atrapalha o trabalho. Na hora de comprar, pergunte ao criador para qual das duas vidas aquele filhote específico foi criado. A resposta muda o cão que você vai levar.

Treinar um cão selecionado para não pedir ordem

A primeira coisa a aceitar é que obediência de precisão não é o forte da raça, e isso não é falta de inteligência. É seleção. Um cão que precisa decidir sozinho, no escuro, se aquele vulto merece reação, não pode ser um cão que espera comando. Traduzido para o treino: o maremano aprende rápido o que faz sentido para ele e ignora com serenidade o que não faz. Sentar dez vezes seguidas por petisco não faz sentido para ele. Voltar quando chamado porque isso sempre terminou bem faz. Trabalhe com sessões curtas, três a cinco minutos, várias vezes ao dia, sempre com reforço positivo e nunca com confronto físico, que em cão de guarda produz desconfiança duradoura em vez de submissão.

As três prioridades reais são socialização, chamada e controle do latido, nessa ordem. Socialização precisa acontecer forte entre a oitava e a décima sexta semana e continuar durante todo o primeiro ano: gente diferente entrando em casa, superfícies, veículos, outros cães, tudo em doses calmas e associadas a coisa boa. Cão de guarda mal socializado não fica mais eficiente, fica mais imprevisível. A chamada precisa ser construída sem nunca ser usada para interromper algo bom, e vale treinar com corda longa de dez a quinze metros por meses antes de confiar em área aberta, porque o instinto de patrulhar limites é forte e a distração de um cheiro na cerca vence qualquer petisco.

O latido é o ponto onde a maioria dos donos urbanos desiste. Latir à noite não é vício, é o método de trabalho da raça, o mesmo mecanismo que mantém raposa longe de pinguim. Não dá para eliminar e não se deve tentar, mas dá para administrar. Reduza gatilhos visuais fechando a linha de visão da cerca. Traga o cão para dentro à noite se o entorno for movimentado. Ensine um sinal de obrigado, quer dizer, deixe latir duas ou três vezes, agradeça, chame para perto e recompense o silêncio, transformando o latido em algo com começo e fim em vez de uma vigília de duas horas. Coleira de choque ou antilatido em cão de guarda é receita para confusão e ansiedade, e não trata a causa.

Do ponto de vista prático, comece o manejo de corpo cedo. Um cão de 45 kg que não aceita escovação, corte de unha, manuseio de orelhas e exame de boca vira um problema de segurança para você e para o veterinário. Treine posição em pé parado, deitar de lado e tolerância a toque desde filhote, com comida, muito antes de ser necessário. Vale o mesmo para transporte no carro, subir em balança e ficar preso sozinho. E lembre que ele amadurece devagar, normalmente entre os dois e os três anos, com uma fase de teste de limites por volta do primeiro ano em que o cão que parecia pronto passa a questionar tudo. Persistência calma resolve. Briga não.

Perguntas frequentes

Guia de Adestramento e Educação para Cães

O Pastor Maremano Abruzês concentra três desafios que derrubam dono despreparado: independência de um cão feito para decidir sozinho, latido noturno que é método de trabalho e não vício, e uma janela de socialização curta que, se perdida, produz um adulto de 50 kg desconfiado. Nada disso se resolve com força, e tudo isso se resolve com rotina curta, reforço positivo e consistência dos dois aos trinta e seis meses de idade. O guia trata exatamente desse tipo de trabalho: como construir chamada confiável em cão que patrulha território, como administrar latido de alarme sem punição, como fazer manejo de corpo em cão grande e como atravessar a fase de teste de limites do primeiro ano sem perder o vínculo.

É material em PDF, direto ao ponto, escrito para consulta rápida em vez de leitura corrida.

Ver o guia de adestramento
Cintia C. Sabbag

Sobre a autora

Cintia C. Sabbag é médica veterinária dedicada à saúde, ao comportamento e ao bem-estar de cães, com foco em orientar tutores a cuidar do animal em todas as fases da vida.