Adestramento e Educação

Basset Hound: guia completo da raça

Guia completo do Basset Hound: ficha oficial da FCI nº 163, medidas, coluna condrodistrófica, orelhas, faro, história francesa e dicas de adestramento.

Cintia C. Sabbag

Por Cintia C. Sabbag

Basset Hound adulto tricolor de pernas curtas em pé, olhando para a câmera

O Basset Hound é um sabujo de pernas curtas que carrega de 20 a 35 kg sobre 33 a 38 cm de altura na cernelha. A FCI o registra sob o padrão nº 163, no Grupo 6, Seção 1.3, com prova de trabalho, e atribui a origem à Grã-Bretanha — mesmo o cão tendo nascido dos bassets franceses. O padrão americano resume a construção numa frase certeira: é o cão com mais osso por centímetro de altura entre todas as raças.

Essa engenharia cobra um preço. O nanismo condrodistrófico que encurtou as pernas também endurece os discos da coluna cedo, e o Basset está entre as raças de risco alto para hérnia de disco. As orelhas que varrem o cheiro do chão até o nariz abafam o canal auditivo: um estudo britânico com 22.333 cães encontrou chance de otite quase 6 vezes maior que a de um vira-lata. Em troca, vem um cão calmo dentro de casa, paciente com crianças e dono do segundo melhor faro do mundo canino, atrás só do Bloodhound.

Expectativa de vida 10 a 13 anos
Altura na cernelha 33 a 38 cm
Peso 20 a 35 kg
Porte Médio

Características do Basset Hound

Cada nota resume o comportamento típico da raça, com base no padrão oficial e na convivência relatada por tutores e criadores. É uma avaliação qualitativa, não uma medição: cada cão é um indivíduo.

  • Adaptabilidade 4/5
  • Nível de afeição 5/5
  • Bom para apartamento 3/5
  • Necessidade social 5/5
  • Necessidade de tosa 2/5
  • Amigável com crianças 5/5
  • Amigável com cães 5/5
  • Amigável com estranhos 4/5
  • Tendência de latir 4/5
  • Gosto por brincadeiras 3/5
  • Inteligência 3/5
  • Tolerância ao frio 3/5
  • Necessidade de exercícios 3/5
  • Facilidade de treinamento 1/5
  • Cão de guarda 1/5
  • Queda de pelo 3/5
  • Espaço necessário 3/5
  • Tolerância ao calor 2/5

Aparência do Basset Hound

O padrão FCI nº 163 fixa a altura entre 33 e 38 cm e não estipula peso. Na prática, o adulto pesa de 20 a 35 kg — um Border Collie de 50 cm pesa menos que isso. O padrão americano diz que o Basset é o cão com mais osso, considerado o tamanho, do que qualquer outra raça. O tronco é longo e profundo, o dorso reto, e o peito precisa manter vão suficiente entre o esterno e o chão para o cão atravessar mato fechado.

Essa proporção não é estética: é condrodistrofia. Uma mutação do retrogene FGF4 no cromossomo 12 encurta os ossos longos e, no mesmo pacote, calcifica os discos intervertebrais ainda no primeiro ano de vida. Discos calcificados perdem a função de amortecedor. É por isso que o Basset entra na mesma lista de risco de hérnia de disco (DDIV) que Dachshund, Corgi e Pequinês — só que com o dobro do peso de um Dachshund pressionando a mesma coluna comprida.

As orelhas são inseridas abaixo da linha dos olhos, longas o bastante para ultrapassar levemente a ponta do focinho quando esticadas, estreitas e enroladas para dentro. Elas têm função: varrem as partículas de cheiro do solo em direção ao nariz enquanto o cão trota. O barbelo — a pele solta sob o queixo — completa o serviço prendendo o odor perto das narinas. A pele é frouxa e elástica, com rugas na cabeça e nas patas dianteiras.

A pelagem é curta, lisa e densa, sem franjas, aceita em qualquer cor reconhecida para sabujos — o tricolor preto, branco e castanho e o bicolor limão e branco são os mais comuns. Os membros dianteiros são curtos, grossos e podem ter dobras de pele; as patas são grandes e almofadadas para sustentar o peso. O andamento é lento e pesado, mas o padrão é claro em exigir movimento poderoso e sem esforço, nunca desengonçado.

Personalidade do Basset Hound

O padrão FCI descreve o temperamento em quatro palavras: plácido, nunca agressivo ou tímido, afetuoso. Dentro de casa é exatamente isso. O Basset passa boa parte do dia deitado, aceita colo, tolera criança pequena com uma paciência que poucas raças têm e recebe estranho abanando a cauda. Como cão de guarda, ele avisa e para por aí — o resto é festa.

Fora de casa, aparece o outro cão. O Basset foi selecionado por séculos para seguir rastro de lebre a pé, sozinho, longe do caçador, decidindo o caminho por conta própria. Quando o nariz encontra um rastro interessante, o resto do mundo desliga: chamado, petisco, buzina de carro. Não é surdez seletiva por birra, é o trabalho para o qual ele foi projetado durante mais de um século de seleção.

A teimosia da raça é consequência direta disso. O Basset entende o comando na primeira semana e decide se vale a pena obedecer nos meses seguintes. Ele não trabalha por elogio nem por vontade de agradar — trabalha por comida e por cheiro, nessa ordem. Quem espera a resposta imediata de um Pastor Alemão vai interpretar como burrice o que é, na verdade, independência de raciocínio.

A voz é grave e potente, desproporcional ao tamanho. Além do latido comum, o Basset tem o 'bay' de caça — meio latido, meio uivo, longo, criado para ser ouvido a centenas de metros pelo caçador que vinha a pé atrás da matilha. Ele usa esse som quando encontra um rastro, quando fica sozinho e quando percebe movimento no corredor do prédio.

Convivência e rotina

A primeira regra da casa envolve altura. Pular do sofá, descer escada correndo e saltar da cama concentram força de impacto em discos que já nascem calcificados. Rampa para o sofá, portãozinho no topo da escada e tapete antiderrapante em piso liso não são exagero de dono coruja — são a diferença entre um cão que chega aos 12 anos andando e um que faz cirurgia de coluna aos 6. Filhote nem deve usar escada: espere fechar o crescimento.

A segunda regra envolve orelha. Aquele pavilhão longo e caído abafa o canal, segura umidade e cria estufa para bactéria e fungo. No estudo VetCompass britânico de 22.333 cães, o Basset Hound apareceu com chance de otite externa 5,87 vezes maior que a de um sem raça definida — o maior risco entre todas as raças analisadas. Inspeção duas vezes por semana, secagem cuidadosa depois do banho e limpeza com solução veterinária são rotina fixa. Cheiro forte, cera escura ou cabeça balançando pedem consulta no mesmo dia.

A terceira regra envolve balança. O Basset come com o mesmo apetite dos primos sabujos e gasta muito menos energia. Cada quilo a mais multiplica a carga sobre uma coluna que já trabalha em desvantagem mecânica. Ração pesada em balança, petisco descontado da cota diária, zero comida de mesa. Costela palpável sem apertar é a régua prática — se você precisa procurar, já passou do ponto.

Em apartamento o Basset funciona pelo espaço e falha pelo som. Ele não corre pela sala e não precisa de quintal: dois passeios de 20 a 30 minutos em ritmo próprio dão conta do gasto físico. O problema é o uivo de solidão, grave, longo e audível três andares acima. Trabalhar dessensibilização à ausência desde filhote, deixar brinquedo recheado só nos momentos sozinho e evitar jornadas de 10 horas de casa vazia resolve a maior parte dos casos. Some a isso a baixa tolerância ao calor — passeio em dia de 30 graus só no começo da manhã ou depois do pôr do sol.

A história do Basset Hound

O nome entrega a origem. 'Basset' vem do francês antigo 'bas', baixo, com o sufixo diminutivo '-et': algo como 'baixinho'. A raiz é o latim 'bassus'. Na França, 'basset' nunca foi uma raça — era a categoria dos sabujos de pernas curtas, criados para caçar lebre, coelho e texugo a pé, em velocidade que dispensava cavalo. Registros de bassets em manuais de caça franceses aparecem desde o século XVI.

No século XIX dois criadores fixaram tipos concorrentes: o conde Le Couteulx de Canteleu selecionou bassets de membros dianteiros retos, e Louis Lane trabalhou a linha de membros tortos. A fusão das duas escolas gerou o Basset Artésien Normand, ancestral direto do cão que conhecemos. A primeira exposição canina de Paris, em 1863, tirou os bassets do circuito de caça francês e os colocou na vitrine internacional.

A travessia para a Inglaterra tem data: 1866, quando Lord Galway importou do canil de Le Couteulx o casal Basset e Belle. Ele os descreveu como cães longos, baixos, com formato de Dachshund e patas dianteiras tortas nos joelhos. Nas décadas seguintes os criadores britânicos assumiram o desenvolvimento, e o nome ganhou o sobrenome que não tinha na França: 'Hound', sabujo.

O responsável pela virada foi Everett Millais, tratado como pai do Basset Hound moderno. Na década de 1890 ele cruzou bassets com Bloodhound para aumentar porte, osso e capacidade olfativa — daí vêm o barbelo pronunciado, a pele solta e a cabeça abobadada do cão atual. A raça chegou aos Estados Unidos no mesmo período: 'Nemours' foi o primeiro Basset a desfilar no Westminster, em 1884, e o AKC reconheceu a raça em 1885. Hoje a FCI mantém o padrão sob patrocínio britânico, com prova de trabalho.

Ficha técnica

Grupo
Grupo 6 da FCI — cães farejadores e raças assemelhadas (Seção 1.3, sabujos de pequeno porte, com prova de trabalho)
Padrão
FCI nº 163
Origem
Grã-Bretanha (desenvolvido a partir de bassets franceses)
Também chamado
Basset, Basset inglês

Destaques e curiosidades

O Basset é o único cão que virou marca de sapato. Em 1958, a Wolverine World Wide lançou um calçado casual e batizou de Hush Puppies — gíria americana em que 'barking dogs' são pés doloridos, e 'hush puppies' os bolinhos que fazendeiros jogavam para calar cachorro. O mascote escolhido foi um Basset chamado Jason, de olhar caído. Em 1959 a marca vendeu um milhão de pares; quatro anos depois, um em cada dez americanos tinha um.

Antes de vender sapato, o Basset era cão de imperador. Os bassets de Napoleão III, Ravageot e Ravagode, foram esculpidos em bronze por Emmanuel Frémiet e exibidos no Salão de Paris de 1853 e na Exposição Universal de 1855 — a peça foi parar na Sala das Guardas do Château de Compiègne, residência real desde 1380. O prestígio da corte é o que empurrou o tipo baixo para as exposições e, dali, para o mundo.

O nariz é o argumento técnico da raça. São mais de 220 milhões de receptores olfativos, contra cerca de 5 milhões de um ser humano, e a região do cérebro dedicada ao olfato é 40 vezes maior proporcionalmente que a nossa. Isso coloca o Basset em segundo lugar absoluto no faro canino, atrás apenas do Bloodhound — e à frente de raças com muito mais fama de farejadoras.

A cara triste rendeu carreira na cultura pop. Elvis Presley cantou 'Hound Dog' no The Steve Allen Show em 1956 para um Basset de cartola chamado Sherlock, e a tirinha britânica 'Fred Basset' transformou o cão no símbolo do bicho preguiçoso e sarcástico. Nada disso aposentou o cão de trabalho: o AKC ainda realiza field trials oficiais de Basset Hound, com matilhas caçando coelho no campo.

Dicas de adestramento

Comece aceitando o limite: o recall confiável de Basset Hound praticamente não existe. Um cão selecionado para seguir rastro sozinho, longe do caçador, não foi feito para largar o cheiro e voltar quando você chama. Treine o 'vem' desde filhote e pague sempre alto, mas trabalhe com guia longa de 5 a 10 metros em qualquer área aberta. Solto só em espaço totalmente cercado, com portão que ele não empurre.

A moeda que funciona é comida. O Basset não trabalha por elogio nem por vontade de agradar; ele calcula se vale a pena. Petisco de alto valor, entregue no instante certo, muda a conta a seu favor. Sessões de 5 minutos, duas ou três por dia, rendem mais que meia hora — a raça desliga quando a repetição cansa e retomar um Basset desligado é trabalho perdido.

Use o faro como recompensa, não como concorrente. No passeio, alterne trechos de 'anda junto' com paradas liberadas de farejar à vontade: o cheiro vira pagamento pelo trecho bem andado. Em casa, tapete olfativo e petisco escondido pela sala cansam a cabeça sem exigir nada da coluna — para um cão condrodistrófico, é o tipo de gasto de energia ideal.

Ajuste o treino ao corpo. Nada de agility, salto, corrida em piso liso ou brincadeira que termine com o cão pulando do sofá. Peitoral em vez de coleira reduz tensão no pescoço e melhora o controle de um cão pesado que ancora as patas quando decide parar. E trate o 'deixa' e o 'solta' como comandos de segurança: com o nariz colado no chão, o Basset engole antes de você ver o que era.

Perguntas frequentes

Guia de Adestramento e Educação para Cães

Recall que o rastro atropela, uivo de solidão que o prédio inteiro escuta, teimosia calculada e um corpo que não aceita brincadeira de impacto: o Basset exige um treino que trabalhe com o nariz em vez de brigar com ele. É isso que o nosso guia ensina — comandos básicos passo a passo, treino de ficar sozinho e uso de recompensa do jeito que cães movidos a comida entendem.

É material em PDF, direto ao ponto, escrito para consulta rápida em vez de leitura corrida.

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Cintia C. Sabbag

Sobre a autora

Cintia C. Sabbag é médica veterinária dedicada à saúde, ao comportamento e ao bem-estar de cães, com foco em orientar tutores a cuidar do animal em todas as fases da vida.