Adestramento e Educação
Maltês: guia completo da raça
Guia completo do Maltês: ficha oficial da FCI nº 65, temperamento, pelagem branca sem subpelo, lágrima ácida, história e dicas de adestramento.
Por Cintia C. Sabbag
O Maltês cabe em três a quatro quilos e carrega um dos currículos mais antigos do mundo canino: Aristóteles já o citava no século IV a.C., e o poeta romano Marcial dedicou versos a uma cadelinha da raça chamada Issa. Não é um cão que virou companhia com o tempo — ele foi criado para isso desde o início, e cada detalhe do corpo confirma a função, do tamanho de colo ao manto branco que desliza até o chão.
Quem procura um cão para apartamento encontra aqui um dos candidatos mais óbvios: precisa de pouco espaço, pouco exercício e solta pouquíssimo pelo, porque não tem subpelo. Em troca, cobra presença. O Maltês quer gente por perto quase o tempo todo, avisa com latidos quando algo o incomoda e exige escovação frequente para o manto não virar nó.
Características do Maltês
Cada nota resume o comportamento típico da raça, com base no padrão oficial e na convivência relatada por tutores e criadores. É uma avaliação qualitativa, não uma medição: cada cão é um indivíduo.
Aparência
O padrão FCI nº 65 define um cão pequeno e alongado: machos medem de 21 a 25 cm na cernelha, fêmeas de 20 a 23 cm, e o peso fica entre 3 e 4 kg. O tronco é cerca de 38% mais comprido que a altura, o que dá ao Maltês uma silhueta retangular que quase desaparece sob o manto — em exemplares de exposição, o pelo toca o chão e o cão parece deslizar em vez de andar.
A cabeça é larga, com olhos redondos e escuros em contraste direto com o branco do pelo. Trufa preta, bordas das pálpebras pretas e lábios pretos formam a pigmentação que o padrão exige: sem esses pontos escuros, o rosto perde a expressão típica da raça. As orelhas são triangulares, caídas e coladas à cabeça, cobertas de pelo longo que se mistura ao restante do manto.
A cauda forma uma curva única sobre o dorso, com a ponta caindo entre os quadris. A cor admitida é o branco puro — o padrão tolera apenas um leve tom marfim. Manchas alaranjadas, mesmo discretas, são consideradas defeito em pista, embora não mudem nada na vida de um cão de companhia.
Vale separar o Maltês de padrão FCI da versão popular no Brasil: muitos exemplares vendidos aqui seguem o tipo americano, um pouco menor e com focinho mais curto. Ambos são Malteses, mas quem pretende competir precisa do tipo europeu descrito no padrão italiano.
Personalidade
O Maltês é um cão vivo, afetuoso e grudado no dono — a palavra que o padrão usa é 'vivace'. Ele acompanha a pessoa de cômodo em cômodo, dorme encostado e reclama quando fica de fora de qualquer atividade. Não é carência acidental: dois milênios de seleção para companhia produziram um cão que entende o colo como posto de trabalho.
Apesar do tamanho, ele tem opinião. É alerta, desconfia de barulhos e avisa com latido agudo quando alguém se aproxima da porta. Isso o torna um bom alarme e um péssimo cão de guarda: anuncia a visita, mas recebe quem entra com o rabo abanando depois da apresentação correta.
Com o dono, é brincalhão até idade avançada. Aos dez anos ainda persegue bolinha pelo corredor. Com estranhos, varia entre a simpatia imediata e uma reserva educada que se desfaz em minutos. Com outros cães, costuma conviver bem, desde que o porte do colega não transforme a brincadeira em risco físico.
O ponto fraco é a solidão. Maltês deixado sozinho por longas jornadas tende a desenvolver latido persistente e comportamento destrutivo. É uma raça para quem trabalha em casa, tem rotina flexível ou pode levá-lo junto — não para quem sai às 7h e volta às 20h.
Convivência e rotina
Poucas raças se encaixam tão bem em apartamento. O Maltês precisa de 20 a 30 minutos diários de atividade — duas voltas no quarteirão e uma sessão de brincadeira dentro de casa resolvem. O resto do dia ele passa por conta própria entre o sofá e a janela, desde que haja gente por perto.
Com crianças, a convivência exige critério. O temperamento é dócil, mas o corpo de 3 kg não tolera queda, pisão ou abraço apertado. Famílias com crianças pequenas precisam supervisionar toda interação; com crianças maiores, que já entendem como pegar um cão pequeno, a relação costuma ser excelente.
O frio é inimigo declarado. Sem subpelo, o Maltês não tem isolamento térmico e treme em temperaturas que outras raças ignoram. No inverno do Sul e Sudeste, roupinha em passeio matinal não é acessório de moda, é necessidade prática. Em dias quentes, ele se vira melhor, mas passeios devem fugir do horário de sol a pino.
A rotina ideal inclui escovação diária ou em dias alternados, limpeza dos olhos toda manhã e visitas regulares ao veterinário com atenção aos dentes — a raça acumula tártaro cedo, e a escovação dental duas a três vezes por semana evita extrações na meia-idade.
Pelagem, tosa e lágrima ácida
O manto do Maltês é um caso raro: pelo único, sem subpelo, de textura sedosa, liso e pesado, que cresce continuamente como cabelo humano. É por isso que a raça quase não solta pelo pela casa — os fios que se desprendem ficam presos no próprio manto até a escovação. A contrapartida é que esse manto embola com facilidade, e nó ignorado por uma semana vira feltro colado à pele.
Na prática, o tutor escolhe entre dois caminhos. O pelo longo de padrão exige escovação diária, banhos semanais e, muitas vezes, papelotes para proteger os fios — rotina de cão de exposição. A tosa bebê, com pelo entre 1 e 3 cm, reduz a manutenção para escovações rápidas duas vezes por semana e tosa na máquina a cada 45 a 60 dias. A maioria dos Malteses de companhia no Brasil vive de tosa bebê, e o cão não perde nada com isso.
A lágrima ácida é a marca registrada dos problemas estéticos da raça: o excesso de lágrima oxida em contato com o ar e tinge de ferrugem o pelo branco abaixo dos olhos. As causas vão de canal lacrimal estreito a dentição do filhote, irritação por pelo no olho e até composição da água e da ração. O tratamento começa identificando a causa com o veterinário — limpar a mancha sem resolver a origem é enxugar gelo.
Para o dia a dia, a rotina que funciona é simples: limpar a região dos olhos toda manhã com gaze e produto específico ou soro fisiológico, manter o pelo ao redor dos olhos aparado e secar bem a região após o banho. Produtos clareadores caseiros perto do olho são risco desnecessário.
A história do Maltês
O Maltês está entre as raças de companhia mais antigas com registro escrito. Aristóteles, no século IV a.C., menciona os pequenos 'canis melitenses', e ânforas gregas de cerca de 500 a.C. já mostram cães muito parecidos com o Maltês atual. Na Roma imperial, o poeta Marcial imortalizou Issa, a cadelinha do governador Publius, em um epigrama do século I — 'mais travessa que o pardal de Catulo', escreveu ele.
Apesar do nome, a origem provavelmente não está na ilha de Malta. A explicação mais aceita liga o nome à palavra semítica 'màlat', que significa refúgio ou porto — raiz que batizou tanto Malta quanto a ilha adriática de Mljet. Os cães brancos e pequenos eram companhia comum nos portos do Mediterrâneo Central, embarcados por mercadores fenícios que os espalharam de costa em costa, também com a missão prática de caçar ratos nos porões.
No Renascimento, o Maltês virou item de corte. Aparece em retratos de damas da nobreza dos séculos XV a XVII, e a rainha Elizabeth I e Mary Stuart estão entre as tutoras históricas registradas. O cão que dormia na manga dos vestidos romanos passou a dormir nas almofadas dos palácios europeus sem mudar de função uma única vez.
A FCI classifica a raça no Grupo 9, seção dos bichons, sob patronato da Itália — reconhecimento da ligação histórica com o Mediterrâneo Central. O padrão vigente, FCI nº 65, teve sua última versão publicada em novembro de 2015.
Ficha técnica
- Grupo
- Grupo 9 da FCI — cães de companhia, seção 1, bichons e raças assemelhadas
- Padrão
- FCI nº 65
- Origem
- Mediterrâneo Central, com patronato da Itália
- Também chamado
- Bichon Maltês, Maltese, Canis melitaeus
Curiosidades
O Maltês costuma aparecer em listas de raças 'hipoalergênicas', mas o termo pede honestidade: nenhum cão é 100% livre de alérgenos, porque a alergia vem de proteínas da saliva e da pele, não do pelo em si. O que é verdade: sem subpelo e com queda mínima, o Maltês espalha muito menos alérgeno pela casa, e boa parte dos alérgicos leves convive bem com ele.
A raça é longeva mesmo entre os cães pequenos. Doze a quinze anos é o intervalo comum, e exemplares que passam dos 17 não são raridade em consultório. Os pontos de atenção veterinária são luxação de patela, problemas dentários e, em algumas linhagens, cardiopatias na velhice.
Filhote de Maltês pode nascer com leve tom marfim ou orelhas amareladas que clareiam com a troca do pelo. O padrão tolera o marfim pálido no adulto, mas o branco puro é o objetivo — e é ele que faz a lágrima ácida ser tão visível nesta raça, enquanto passa despercebida em cães de pelo escuro.
Na Grécia antiga, o apreço pela raça chegava ao ponto de tumbas serem erguidas para esses cães. E o epigrama de Marcial sobre Issa registra que Publius mandou pintar um retrato dela para que a imagem sobrevivesse à cadela — talvez o primeiro caso documentado de retrato de pet por encomenda.
Dicas de adestramento
O Maltês aprende rápido e trabalha bem por comida e por atenção — reforço positivo é o único método que faz sentido para um cão de 3 kg emocionalmente colado no dono. Sessões de 5 a 10 minutos, duas vezes ao dia, rendem mais que meia hora corrida. Bronca e punição só produzem um cão inseguro que passa a ter medo de errar.
O desafio número um é o xixi no lugar certo. Bexiga pequena enche rápido, e o filhote precisa de acesso ao tapete higiênico a cada duas horas no início. Defina um único local, recompense no segundo em que ele acerta e ignore os erros limpando sem drama. Constância nas primeiras oito semanas em casa economiza anos de tapete errado.
O segundo desafio é o latido. O Maltês avisa sobre campainha, vizinho, elevador e passarinho. O caminho é ensinar o comando de silêncio cedo: deixe latir duas ou três vezes, chame, recompense o momento em que ele para. Gritar 'quieto' funciona como resposta ao latido — para o cão, virou diálogo.
Por fim, trate-o como cão, não como bibelô. Maltês carregado no colo o dia inteiro, que nunca anda na rua com as próprias patas e é poupado de toda frustração, vira um adulto reativo e medroso. Socialização com pessoas, cães e ambientes entre 8 e 16 semanas de vida constrói o temperamento estável que a genética da raça já oferece de fábrica.
Perguntas frequentes
Não. O Maltês não tem subpelo e o pelo cresce continuamente, como cabelo humano, então a queda é mínima — os fios soltos ficam presos no manto até a escovação. A contrapartida é a manutenção: sem escovar com frequência, o pelo embola. É uma boa escolha para quem não tolera pelo pela casa, desde que aceite a rotina de escovação e tosa.
São raças diferentes em estrutura e pelagem. O Maltês tem pelo liso, sedoso e sempre branco (FCI nº 65, 20 a 25 cm, 3 a 4 kg); o Poodle tem pelo encaracolado e lanoso em várias cores, e existe em quatro tamanhos, do toy ao grande. No temperamento, o Poodle costuma ser mais atlético e voltado a atividade; o Maltês é mais cão de colo e presença constante. A confusão no Brasil vem dos mestiços 'maltipoo', que misturam as duas raças.
Primeiro, descubra a causa com o veterinário: pode ser canal lacrimal estreito, pelo tocando o olho, dentição do filhote ou alimentação. Resolvida a origem, a rotina diária faz o resto — limpar a região com gaze e soro fisiológico ou produto específico toda manhã, manter o pelo ao redor dos olhos aparado e a região sempre seca. A mancha antiga sai gradualmente com o crescimento do pelo novo; evite clareadores caseiros perto dos olhos.
Por poucas horas, sim, com adaptação gradual desde filhote. Mas é uma das raças mais dependentes de companhia humana, e jornadas de 8 a 10 horas sozinho todos os dias tendem a gerar latido persistente, destruição e ansiedade de separação. Combina melhor com quem trabalha em casa, tem alguém presente durante o dia ou pode contar com creche e passeador.
Late mais que a média. É um cão alerta que anuncia campainha, barulhos de corredor e movimento na rua — herança útil de séculos como cão de aviso nos portos do Mediterrâneo. Em apartamento, isso pede treino: ensinar o comando de silêncio cedo, recompensar a calma e não reforçar o latido com gritos resolve na grande maioria dos casos.
Guia de Adestramento e Educação para Cães
Xixi fora do tapete, latido a cada campainha e um cão que desaba quando fica sozinho: os três problemas mais comuns do Maltês são exatamente os que a educação certa nas primeiras semanas evita. O Guia de Adestramento e Educação para Cães mostra o passo a passo do reforço positivo, do treino de tapete higiênico ao comando de silêncio, na ordem em que um filhote consegue aprender.
É material em PDF, direto ao ponto, escrito para consulta rápida em vez de leitura corrida.
Ver o guia de adestramento
Sobre a autora
Cintia C. Sabbag é médica veterinária dedicada à saúde, ao comportamento e ao bem-estar de cães, com foco em orientar tutores a cuidar do animal em todas as fases da vida.