Adestramento e Educação
Pequinês: guia completo da raça
Guia completo do Pequinês: peso, temperamento, braquicefalia, pelagem, convivência e a história imperial da raça, com a ficha oficial da FCI.
Por Cintia C. Sabbag
O Pequinês foi criado para uma única função: viver dentro da Cidade Proibida como companhia da corte imperial chinesa. Durante séculos ninguém fora do palácio podia ter um — roubar um exemplar dava pena de morte. Essa origem explica o cão de hoje: pequeno no tamanho, enorme na opinião, convencido de que a casa funciona em torno dele.
É também uma raça braquicefálica de pelagem longa, e as duas coisas cobram trabalho: calor é risco real, os olhos proeminentes se machucam com facilidade e a juba exige escovação séria. O padrão da FCI, de número 207, resume o físico numa frase honesta: um cão pequeno, mas surpreendentemente pesado quando erguido.
Características do Pequinês
Cada nota resume o comportamento típico da raça, com base no padrão oficial e na convivência relatada por tutores e criadores. É uma avaliação qualitativa, não uma medição: cada cão é um indivíduo.
Aparência e condição física
O padrão da FCI, de número 207, descreve o Pequinês com uma frase que todo tutor confirma no primeiro colo: um cão que parece pequeno, mas é surpreendentemente pesado quando erguido. A ossatura é grossa, a frente é larga e o corpo afina para trás, em formato de pera. O peso ideal fica em até 5 kg nos machos e 5,4 kg nas fêmeas — um dos raros padrões em que a fêmea pode pesar mais que o macho. A altura gira entre 15 e 23 cm na cernelha.
A cabeça é grande e larga, com olhos redondos, escuros e bem separados, e a pelagem forma a juba que rendeu à raça o apelido de cão-leão. O andar é assinatura registrada: o rolling gait, um gingado rolante que vem da frente pesada e arqueada combinada com o posterior mais leve. Um Pequinês bem construído não trota como os outros cães — ele desfila balançando.
A braquicefalia precisa ser dita com franqueza: o focinho achatado que define a cara da raça reduz a capacidade de resfriar o corpo ofegando, e a síndrome obstrutiva das vias aéreas (BOAS) é um risco documentado. A pressão veterinária levou o Kennel Club britânico a revisar o padrão para exigir focinho evidente, justamente para afastar a criação de exemplares de cara totalmente plana. Ao escolher um filhote, narinas abertas e respiração silenciosa valem mais que cara achatada de fotografia.
Os olhos grandes e proeminentes são o segundo ponto de atenção médica. Ficam expostos a arranhões, úlceras de córnea e, em traumas, a deslocamento da órbita. Qualquer olho fechado, lacrimejando ou opaco num Pequinês é consulta veterinária no mesmo dia, não observação até segunda-feira.
Personalidade
O Pequinês tem a personalidade que séculos de trono produzem: dignidade primeiro, obediência talvez. Não é um cão subserviente nem um cão de colo no sentido dócil da expressão — ele aceita o colo quando quer, na hora que quer, e desce quando o assunto dele acabou. Quem espera a devoção grudenta de um Shih Tzu estranha; quem gosta de gato reconhece o estilo na hora.
A independência não significa frieza. O Pequinês costuma eleger uma pessoa da casa e ser profundamente leal a ela, acompanhando de perto, dormindo por perto e vigiando a porta. Com o resto da família ele é cordial; com estranhos, reservado — a raça observa antes de aprovar, e aprovação não é automática.
A coragem é desproporcional ao tamanho. Um Pequinês de 4 kg não recua diante de cão grande, não se intimida com barulho e defende o que considera dele com uma seriedade que seria cômica se não exigisse manejo: em passeio, a guia curta evita que a valentia de 4 kg encontre um adversário de 40.
Convivência e rotina
O calor é o inimigo número 1, e não é força de expressão: o Pequinês soma focinho achatado com casaco duplo e denso — a pior combinação possível para o clima brasileiro. Passeio só de manhã cedo ou à noite, casa com ventilação ou ar-condicionado nos dias quentes, água sempre disponível e nunca, em hipótese alguma, espera dentro de carro fechado. Ofegação ruidosa, língua muito escura e apatia em dia quente são emergência.
A necessidade de exercício é mínima — dois passeios curtos e lentos por dia resolvem — e isso faz da raça uma das mais adequadas a apartamento. O que o apartamento precisa oferecer em troca é proteção física: os olhos proeminentes se machucam em brincadeira brusca, em quina de móvel baixo e até em planta com folha pontuda na altura da cara do cão.
Escadas merecem regra própria. O corpo comprido, a frente pesada e as pernas curtas fazem do sobe-e-desce diário um risco para a coluna e para os olhos em caso de queda. Rampa ou colo para trajetos de escada, e bloqueio de acesso quando ninguém está olhando, são ajustes baratos que evitam cirurgia cara.
Com crianças pequenas a convivência exige supervisão: o Pequinês não tolera aperto, puxão de juba nem brincadeira de arremesso, e avisa antes de se defender — mas avisa uma vez. Com crianças maiores, que respeitam o espaço dele, convive bem. Como alarme doméstico funciona: late com propósito quando algo muda no território, sem ser um latidor crônico.
Pelagem e queda de pelo
A pelagem é dupla e longa: capa externa lisa e áspera, subpelo denso e a juba abundante no pescoço e nos ombros — a moldura de leão que o padrão valoriza. Manter esse conjunto bonito não é tarefa de fim de semana: escovação diária, ou no mínimo em dias alternados, para desfazer nó atrás das orelhas, nas calças e sob a juba antes que vire feltro.
A alternativa honesta para quem não vai escovar todo dia é a tosa curta de manutenção. O cão perde a silhueta de exposição e ganha conforto térmico e praticidade — troca que faz sentido para a maioria dos tutores no Brasil. O que não existe é meio-termo sem custo: pelagem longa sem escovação vira nó, e nó em subpelo denso machuca a pele.
A queda é real e engana quem olha só para o cão pequeno: o subpelo solta o ano inteiro e despeja volume nas mudas de estação. Escovação frequente segura boa parte disso na escova em vez de no sofá. A dobra de pele sobre o focinho pede limpeza com gaze seca algumas vezes por semana — umidade acumulada ali inflama rápido.
A história do Pequinês
O Pequinês foi, por séculos, propriedade exclusiva da corte imperial chinesa. Dentro da Cidade Proibida, os cães-leão eram tratados como figuras sagradas — a semelhança com os leões guardiões do budismo lhes dava estatuto quase religioso, e alguns exemplares tinham criados próprios. A posse por plebeus era proibida, e o roubo de um cão do palácio era punido com a morte.
A seleção na corte produziu até uma subcategoria: os sleeve dogs, exemplares miniaturizados criados no tamanho exato para viajar dentro das mangas amplas das vestes imperiais. O cão saía do palácio literalmente vestido no imperador — símbolo de status que nenhuma outra raça pode reivindicar.
O mundo exterior só conheceu a raça por um episódio violento. Em outubro de 1860, na Segunda Guerra do Ópio, tropas britânicas e francesas saquearam o Antigo Palácio de Verão, em Pequim. Entre os despojos, cinco pequineses encontrados nos aposentos imperiais. O capitão John Hart Dunne levou uma fêmea para a Inglaterra e a presenteou à rainha Vitória, que a batizou com o nome que confessa a origem: Looty — 'saqueadinha'. Looty viveu na corte britânica até 1872.
Nas décadas seguintes, presentes diplomáticos da imperatriz-viúva Cixi e novas importações consolidaram a criação fora da China. É por isso que a ficha da FCI registra a China como país de origem e a Grã-Bretanha como patrocinadora do padrão, o de número 207, no grupo 9 dos cães de companhia.
Ficha técnica
- Grupo
- Grupo 9 da FCI — cães de companhia
- Padrão
- FCI nº 207
- Origem
- China
- Também chamado
- Pekingese, Pékinois, cão-leão, Lion Dog, sleeve dog
Destaques e curiosidades
Um Pequinês sobreviveu ao Titanic. Sun Yat-Sen, cão do editor americano Henry Sleeper Harper, embarcou na primeira classe e saiu do naufrágio de 1912 num dos botes salva-vidas — foi um dos três cães que escaparam, todos de porte mínimo.
A lenda de origem da raça é uma das mais bonitas da cinofilia: um leão se apaixonou por um sagui e pediu a Buda que o encolhesse ao tamanho da amada, mantendo o coração de leão. O resultado do casamento seria o Pequinês — tamanho de mico, coragem de leão, o que qualquer tutor confirma no primeiro encontro do cão com um dogue alemão.
O padrão da raça é dos pouquíssimos em que a fêmea pode ser mais pesada que o macho: até 5,4 kg contra 5 kg. E a imperatriz Cixi deixou por escrito seu ideal de Pequinês em versos que pediam, entre outras coisas, pernas curtas 'para que não deseje vagar' — a corte chinesa selecionava até o desejo de sair de perto do trono.
Dicas de adestramento
Treinar um Pequinês é negociar com um imperador: ele entende o comando na terceira repetição e decide se obedece caso a caso. A nota baixa em facilidade de treinamento não é falta de inteligência — é excesso de opinião. A única moeda que funciona é a recompensa: petisco de alto valor, sessão curta e a sensação, para o cão, de que a ideia foi dele.
Sessões de cinco minutos, duas ou três vezes por dia, em horário fresco, rendem mais que meia hora de insistência. Passou disso, o Pequinês se retira da negociação — literalmente: vira as costas e vai embora. Bronca e imposição física só consolidam a teimosia; com essa raça, quem perde a paciência perde o treino.
O xixi no lugar certo é a batalha mais longa. A raça é notoriamente lenta para aprender onde fazer as necessidades, e o método que funciona é o mais burocrático: horários fixos, supervisão constante no começo e festa com petisco a cada acerto, por semanas. Atalho não existe; constância sim.
Dois comandos merecem prioridade desde filhote: o 'vem', porque um cão braquicefálico solto no calor não pode depender da própria vontade de voltar, e a habituação ao manuseio — boca, patas, escovação e limpeza dos olhos —, porque um Pequinês que só aceita ser tocado quando quer transforma cada ida ao banho e tosa em queda de braço.
Perguntas frequentes
Bravo não é a palavra certa — reservado e sem paciência para abuso é mais preciso. O Pequinês não busca briga, mas não tolera aperto, puxão nem invasão de espaço, e avisa com rosnado antes de se defender. Socialização desde filhote e crianças orientadas a respeitar o cão resolvem a maior parte dos problemas.
É uma das raças que pior lidam com calor: soma focinho achatado, que dificulta o resfriamento pela ofegação, com pelagem dupla e densa. No Brasil, isso significa passeios só em horário fresco, ambiente ventilado ou climatizado nos dias quentes e atenção a sinais de superaquecimento. Carro fechado, nem por dois minutos.
Os dois são cães chineses de palácio, de pelagem longa e focinho curto, e a confusão é compreensível. O Pequinês é mais baixo, mais pesado para o tamanho, com frente larga e o andar rolante característico — e é bem mais independente. O Shih Tzu é mais alto de perna, mais leve e visivelmente mais sociável com estranhos e crianças. Em resumo: o Shih Tzu quer agradar; o Pequinês quer ser agradado.
Solta bastante: o subpelo denso cai o ano inteiro e aumenta muito nas trocas de estação. Escovação diária ou em dias alternados segura boa parte do volume na escova. A tosa curta de manutenção reduz o trabalho e o pelo espalhado, ao custo da silhueta de leão.
A faixa comum é de 12 a 14 anos. Os fatores que mais pesam estão no controle do tutor: manter o peso dentro do padrão, proteger o cão do calor, cuidar dos olhos proeminentes e evitar escadas e saltos que castigam a coluna comprida. Um Pequinês magro e protegido do sol costuma envelhecer bem.
Guia de Adestramento e Educação para Cães
O Pequinês é a prova de que cão pequeno não é cão fácil: independente, teimoso e lento no xixi no lugar certo, ele exige método em vez de improviso. O Guia de Adestramento e Educação organiza exatamente o que essa raça pede — treino por recompensa em sessões curtas, os comandos essenciais e a rotina de habituação que evita queda de braço na escovação e no banho.
É material em PDF, direto ao ponto, escrito para consulta rápida em vez de leitura corrida.
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Sobre a autora
Cintia C. Sabbag é médica veterinária dedicada à saúde, ao comportamento e ao bem-estar de cães, com foco em orientar tutores a cuidar do animal em todas as fases da vida.