Adestramento e Educação
Chow Chow: guia completo da raça
Guia completo do Chow Chow: ficha oficial da FCI nº 205, medidas, temperamento independente, a língua azul e os cuidados com a pelagem no calor.
Por Cintia C. Sabbag
O Chow Chow é um cão chinês de porte médio, reconhecido pela FCI sob o padrão nº 205, no Grupo 5, seção dos spitz asiáticos. Machos medem de 48 a 56 cm na cernelha, fêmeas de 46 a 51 cm, e o peso fica entre 20 e 30 kg. A pelagem dupla forma uma juba ao redor do pescoço, e a língua azul-arroxeada é marca registrada: nenhuma outra raça a exibe com tanta constância, exceto o Shar Pei.
Quem espera um cão que busca bolinha e recebe visitas abanando o rabo vai se frustrar. O Chow Chow se comporta como um gato de 25 kg: escolhe quando quer companhia, ignora estranhos e obedece quando enxerga motivo. É limpo, silencioso e digno — e exige de quem o adota socialização precoce, escovação disciplinada e um plano honesto para o calor brasileiro.
Características do Chow Chow
Cada nota resume o comportamento típico da raça, com base no padrão oficial e na convivência relatada por tutores e criadores. É uma avaliação qualitativa, não uma medição: cada cão é um indivíduo.
Aparência: um leão compacto de língua azul
O padrão FCI nº 205 descreve um cão compacto, de corpo curto e equilibrado. Machos medem de 48 a 56 cm na cernelha e fêmeas de 46 a 51 cm, com peso entre 20 e 30 kg — mas a pelagem densa faz o Chow Chow parecer bem maior do que a fita métrica confirma. A cabeça larga, o crânio plano e a expressão carrancuda completam a semelhança com um leão em miniatura.
A juba é o traço mais fotografado: na variedade de pelo longo, o pescoço e os ombros carregam uma crina espessa que emoldura o rosto. Existe também a variedade de pelo curto, menos comum no Brasil, com pelagem em pé, densa como pelúcia. As cores aceitas são sólidas: vermelho, preto, azul, fulvo, creme ou branco — nunca malhado.
A língua azul-arroxeada é exigência de padrão: gengivas e palato escuros acompanham o conjunto, e língua rosada desclassifica o cão em exposição. Os filhotes, curiosamente, nascem com a língua rosa; a pigmentação escurece nas primeiras semanas de vida.
O andar é único entre as raças: os posteriores têm angulação mínima, com o jarrete quase reto, o que produz passos curtos e pendulares — as patas traseiras parecem não dobrar. Não é defeito, é assinatura da raça, mas explica por que o Chow Chow não acompanha corridas longas nem trilhas puxadas.
Personalidade: o cão que age como gato
O Chow Chow não é um cão de agradar. Ele aprende comandos com facilidade, mas executa quando julga que vale a pena — comportamento que criadores comparam ao de um gato. Chamar isso de teimosia é ler errado: é independência selecionada por séculos de trabalho autônomo como guardião.
O apego existe, mas é reservado. O Chow Chow costuma eleger uma ou duas pessoas da casa como referência e demonstrar afeto do jeito dele: ficando por perto, no mesmo cômodo, sem pedir colo. Sessões longas de agarramento e beijos não fazem o estilo da raça — e forçar contato físico é o caminho mais curto para um cão arisco.
Com estranhos, a postura padrão é distância e avaliação. Ele não recebe visita fazendo festa; observa, decide e, na maioria das vezes, ignora. Essa desconfiança natural faz dele um alerta silencioso e eficiente, mas cobra socialização estruturada desde filhote para não virar reatividade.
Dentro de casa é um cão quieto, limpo e de latido raro. Quem convive com um Chow Chow bem-criado descreve um companheiro discreto que acompanha a rotina sem atrapalhar — mais colega de apartamento do que sombra grudada no tornozelo.
Convivência e rotina
Vamos ser diretos: o Chow Chow sofre no calor. A pelagem dupla que o protegia dos invernos do norte da China vira estufa em cidade brasileira de 32 °C. Passeios precisam acontecer antes das 8h ou depois das 18h, sempre com água disponível, e ambiente climatizado deixa de ser luxo em boa parte do país. Focinho curto e casaco denso somam risco real de hipertermia.
A necessidade de exercício é baixa para o porte: duas caminhadas tranquilas de 20 a 30 minutos por dia bastam. Ele não corre atrás de bolinha, não nada com entusiasmo e não anima trilha de 10 km. Isso o torna viável em apartamento, desde que a temperatura interna seja controlada e a escovação esteja em dia.
Socialização é o ponto crítico da raça. Entre 3 e 14 semanas de vida, o filhote precisa conhecer pessoas variadas, cães equilibrados, sons urbanos e manuseio de corpo inteiro — banho, escova, veterinário. Um Chow Chow que pula essa fase tende a virar adulto desconfiado demais, e corrigir isso depois custa meses de trabalho profissional.
Com crianças pequenas, a convivência exige supervisão: o Chow Chow tolera pouco puxão de orelha e abraço apertado, e o campo visual reduzido pelos olhos fundos faz com que aproximações por trás o assustem. Com outros cães do mesmo sexo, a tendência dominante pede apresentações graduais e territórios bem definidos.
Pelagem dupla: escovação séria, tosa nunca
A pelagem do Chow Chow tem duas camadas: subpelo lanoso e denso, e capa externa áspera e reta. Esse sistema isola do frio e do calor, mas só funciona se estiver destravado — subpelo morto acumulado forma nós, retém umidade e transforma o casaco em cobertor molhado.
O mínimo aceitável são três escovações por semana, de 20 a 30 minutos cada, com rastelo de subpelo e escova de pinos chegando até a pele — pentear só a superfície é fingir que escova. Nas duas grandes trocas de pelo do ano, a escovação vira diária e a quantidade de pelo solto impressiona até tutor experiente.
Nunca tose um Chow Chow no zero. A tosa máquina destrói o mecanismo de isolamento térmico, expõe a pele clara a queimadura solar e frequentemente causa alopecia pós-tosa: o pelo pode levar mais de um ano para voltar, quando volta com a textura original. No calor, a solução é remover subpelo morto com escovação e manter o cão fresco — não raspar.
Banho a cada 4 a 6 semanas, com secagem completa até a pele, fecha a rotina. Umidade presa no subpelo é convite para dermatite, problema comum na raça em clima úmido. Se o orçamento permitir, um banho e escovação profissional mensal economiza horas e preserva o casaco.
A história do Chow Chow
O Chow Chow é uma das raças mais antigas do mundo: artefatos da dinastia Han, por volta de 200 a.C., já retratam cães de constituição idêntica, e estudos genéticos o colocam entre as raças basais, próximas da origem do cão doméstico. Sua terra são as regiões frias do norte da China e da Mongólia.
Na China ele nunca foi enfeite: guardava templos e propriedades, caçava, puxava carga e acompanhava rebanhos. Um cão de trabalho múltiplo que precisava decidir sozinho — daí a independência que define o temperamento até hoje. O nome chinês Songshi Quan se traduz como 'cão-leão felpudo'.
O Ocidente o conheceu no fim do século XVIII, quando mercadores ingleses trouxeram exemplares da China. 'Chow chow' era a gíria dos navios para miudezas da carga oriental, e o rótulo do porão acabou batizando a raça. A Rainha Vitória manteve exemplares, o clube inglês da raça surgiu em 1895 e o reconhecimento americano pelo AKC veio em 1903.
No Brasil, o Chow Chow chegou ao auge de popularidade nos anos 1980 e 1990. Hoje é menos comum, o que tem um lado bom: a criação atual tende a ser mais criteriosa, com foco em temperamento estável e nas avaliações de displasia que a raça exige.
Ficha técnica
- Grupo
- Grupo 5 da FCI — Spitz e cães do tipo primitivo
- Padrão
- FCI nº 205
- Origem
- China
- Também chamado
- Chow, Songshi Quan (cão-leão felpudo)
Curiosidades
A língua azul rende lendas — a mais famosa diz que o Chow Chow lambeu o céu enquanto Buda o pintava. A explicação real é concentração de pigmento na mucosa, característica que ele divide apenas com o Shar Pei, outro chinês. Filhotes nascem de língua rosa, que escurece completamente até por volta da oitava semana.
Sigmund Freud atendia pacientes com sua chow Jofi deitada no consultório. O pai da psicanálise dizia que a cadela lia o estado emocional dos pacientes melhor do que ele — e Jofi ainda marcava o fim das sessões: levantava e caminhava até a porta quando os 50 minutos terminavam.
Martha Stewart cria Chow Chows há décadas e os exibe no mais alto nível: seu chow Genghis Khan, o 'GK', venceu o grupo não-esportivo no Westminster Kennel Club de 2012, a exposição de cães mais tradicional dos Estados Unidos.
A lista de tutores célebres é longa: Konrad Lorenz, vencedor do Nobel e fundador da etologia, Georgia O'Keeffe, Elvis Presley e o presidente americano Calvin Coolidge, que manteve um Chow Chow na Casa Branca.
Dicas de adestramento
Treinar um Chow Chow é negociar com um profissional autônomo, não comandar um estagiário ansioso por elogio. Ele entende o comando na terceira repetição; a questão é convencê-lo de que obedecer compensa. Descubra a moeda dele — petisco de alto valor, acesso ao quintal, fim da sessão — e pague bem no início.
Sessões curtas funcionam: 5 a 10 minutos, duas vezes por dia, encerrando antes de o cão desligar. Repetir o mesmo exercício quinze vezes seguidas garante uma coisa só: um Chow Chow de costas para você. Varie os pedidos e termine sempre num acerto.
Força e intimidação são contraproducentes nesta raça. O Chow Chow não responde a bronca com submissão; responde com distância — e um cão de 28 kg que decide não cooperar no banho ou no veterinário vira problema sério. Condicione manuseio de patas, orelhas e boca desde as primeiras semanas, com reforço positivo, e esse problema não nasce.
Priorize três frentes na ordem: socialização intensa até os 4 meses, chamado confiável com recompensa alta e caminhada com guia frouxa. Obediência de competição não é a praia da raça, e tudo bem — um Chow Chow sociável, seguro e controlável na rua já é um cão educado no padrão que a raça permite.
Perguntas frequentes
É concentração natural de pigmento na mucosa da boca — a mesma melanina que escurece pele e pelo. O padrão FCI exige língua azul-arroxeada com gengivas e palato escuros. Só o Shar Pei, também chinês, divide a característica. Os filhotes nascem com língua rosa, que escurece até por volta da oitava semana de vida.
Bravo não é a palavra certa; desconfiado é. A raça foi selecionada para guardar e ignora estranhos por padrão. Um Chow Chow socializado entre 3 e 14 semanas de vida cresce reservado, mas estável. Sem essa socialização, a desconfiança pode virar reatividade — e aí sim aparece o cão de fama difícil. O trabalho de base define qual dos dois você terá.
Mal. A pelagem dupla foi feita para o inverno do norte da China, e o focinho relativamente curto piora a dissipação de calor. Dá para criar no Brasil com ajustes sérios: passeios só no início da manhã e fim da tarde, ambiente climatizado nos dias quentes, água sempre disponível e escovação frequente para remover subpelo morto. Tosar no zero não resolve e ainda prejudica a pele.
Gosta, nos termos dele. A raça demonstra afeto ficando por perto das pessoas que elegeu, não pedindo colo. Sessões longas de abraço costumam ser toleradas, não apreciadas — e forçar contato afasta o cão. Quem quer um companheiro grudento deve olhar outra raça; quem respeita o espaço do Chow Chow ganha uma lealdade discreta e constante.
Muito. A pelagem dupla solta pelo o ano todo e explode em duas grandes trocas anuais, quando o subpelo cai em tufos e a escovação precisa ser diária. Fora das trocas, três sessões semanais de 20 a 30 minutos com rastelo de subpelo mantêm a situação sob controle. Em casa de tutor alérgico ou avesso a aspirador, a raça não se encaixa.
Guia de Adestramento e Educação para Cães
O Chow Chow testa exatamente o que a maioria dos tutores não aprendeu: motivar um cão que não trabalha por elogio, socializar na janela certa e treinar manuseio antes que os 28 kg decidam por conta própria. O Guia de Adestramento e Educação para Cães organiza esse passo a passo — reforço positivo, socialização, rotina de comandos — na sequência que funciona para cães independentes.
É material em PDF, direto ao ponto, escrito para consulta rápida em vez de leitura corrida.
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Sobre a autora
Cintia C. Sabbag é médica veterinária dedicada à saúde, ao comportamento e ao bem-estar de cães, com foco em orientar tutores a cuidar do animal em todas as fases da vida.